Advogado do interior de Minas põe a IA para fazer o marketing e os sistemas do próprio escritório
Dono de um escritório de direito bancário com dez a doze vendedores, Tallisson Souza montou no próprio computador uma operação de marketing com inteligência artificial. Em quatro semanas, vieram anúncios, cinco reels, um deck de vendas de 43 slides e uma plataforma de cálculo.
Em Itambacuri, cidade de 21 mil habitantes no Vale do Mucuri, em Minas Gerais, o advogado Tallisson Souza comanda um escritório com mais de 5.000 processos bancários pelo país e um time comercial de dez a doze vendedores. Desde o fim de julho, boa parte do marketing do escritório sai de uma pasta no computador dele: o anúncio, o roteiro do reel, a apresentação que o vendedor abre na chamada com o cliente.
A pasta é o que a Artemis, empresa de tecnologia que montou o sistema com ele, chama de Sala de Operações. São arquivos que descrevem o escritório, regras de revisão e cerca de cem rotinas prontas, as skills, que rodam no Claude, a inteligência artificial da Anthropic.
“Ele consegue fazer os anúncios, consegue editar os vídeos, tudo porque ele tem o que a gente apelidou de MktOps instalado no computador dele”, diz Hélio Costa Jr., sócio-diretor da Artemis.
- 43slides no deck de vendas refeito com IA, em versão de navegador, PDF e PowerPoint
- 5reels e duas levas de anúncio produzidos entre julho e agosto
- 36×mais cliques do Google no site em seis meses: de 327 para 11.792
- 258milaparições do site em respostas de IA do Google em doze semanas
Cinco planilhas e um CRM
O primeiro problema a resolver foi a informação espalhada. Além do CRM, o comercial do escritório vivia em cinco planilhas, entre elas a da métrica dos closers, que fecham o contrato, a dos SDRs, que fazem o primeiro contato, a do dinheiro que entra e sai do tráfego pago e a da agenda de reuniões.
Quando tentou pôr a IA para analisar os números, Tallisson esbarrou nisso. A queixa dele, como a equipe da Artemis relata, era que a IA “não consegue puxar todas as minhas planilhas”.
A saída foi juntar as planilhas e o CRM num painel só e dar à IA acesso a ele. No filtro do mês aparecem as reuniões recebidas e realizadas, as propostas, as vendas e a taxa de conversão de cada closer, ao lado do investimento em anúncio e da origem de cada cliente, seja Facebook, Instagram ou WhatsApp.
Julio Lossavaro, da Artemis, dá o exemplo do que muda: se só um em cada dez clientes que chegam pelo anúncio fecha contrato, quem olha apenas o custo do lead tira a conclusão errada. “A gente entra organizando o contexto dele. Contexto, ou seja, que informação eu dou para a IA”, diz.
Entenda
O que muda quando a IA conhece o escritório
Antes · a IA aberta no navegador
As planilhas e o CRM ficam de fora. A IA não sabe quem é o cliente do escritório nem o que a OAB proíbe dizer.
Depois · a operação instalada no computador
O contexto fica escrito em arquivo. Quando algo muda no escritório, muda-se o arquivo uma vez, e as peças seguintes já saem com a mudança.
A Artemis chama esse conjunto de pastas, regras e skills de Sala de Operações. Ele roda no Claude, a IA da Anthropic, no computador de quem opera.
O anúncio, o reel e o deck saem da mesma pasta
Com o contexto escrito, o pedido deixa de começar do zero. O arquivo que a IA lê antes de cada tarefa descreve o cliente do escritório, o dono de pequena e média empresa endividado com banco, em geral em setores de margem apertada, como supermercado, posto de combustível e logística. Também registra como esse empresário fala e o que a publicidade de advogado não pode dizer. O Código de Ética da OAB proíbe prometer resultado, e a regra está lá como trava de revisão.
Entre o fim de julho e o fim de agosto, a operação produziu duas levas de anúncio e cinco reels. Um deles abre com a frase que o escritório adotou como bandeira: “Seu gerente do banco não é seu amigo”. O argumento vem do que Tallisson vê nos clientes que chegam depois de renegociar sozinhos. Numa entrevista de dezembro, ele descreveu o caso típico, a dívida de R$ 200 mil que o gerente parcela em 96 vezes: “sua dívida vai pra 500 mil”.
A peça mais longa foi o deck. Além do escritório, Tallisson vende a outros advogados o MVJ, Máquina de Vendas Jurídica, um programa de implantação comercial, e a apresentação desse programa tinha 43 slides em PowerPoint. A versão refeita com IA manteve o conteúdo, corrigiu nove erros de grafia, listou slide a slide o que mudou para ele aprovar e saiu em três formatos: página de navegador, PDF e PowerPoint.
Os slides seguem a ordem da conversa de venda do MVJ, em seis blocos: contexto, risco, virada, método, prova e decisão. No próprio programa, uma apresentação comercial adicional custa R$ 4.000 ao cliente.
Uma plataforma de cálculo com o nome do escritório
Há plataformas pagas que simulam acordos e recalculam contratos bancários com índices oficiais. Tallisson quis a dele. A primeira versão, construída pela Artemis, entrou no ar em 4 de agosto com simulador de acordo e cálculo revisional alimentado pelas séries do Banco Central. Em seguida ganhou uma área de gestão, com clientes, casos e o funil de negociação em colunas.
O pedido de Tallisson era que as contas batessem com as da ferramenta que ele já conhecia. Antes de liberar o sistema, a equipe da Artemis conferiu o cálculo contra exemplos de referência, e o revisional consulta o Banco Central no momento em que o advogado abre o caso.
Achado pelo Google e pela IA
O escritório chegou à Artemis pelo site. Nos seis meses encerrados em 8 de agosto, o escritoriosouzaadvogados.com.br recebeu 11.792 cliques vindos do Google. Nos seis meses anteriores, haviam sido 327. As impressões, que contam cada vez que o site aparece numa busca, passaram de 71.883 para 1,73 milhão, segundo o Google Search Console.
Desde maio, o Google separa num relatório as vezes em que um site aparece dentro das respostas escritas por IA, nos blocos que vêm antes dos links. Entre 18 de maio e 7 de agosto, o site do escritório apareceu 258 mil vezes nessas respostas. No monitoramento que a Artemis faz do ChatGPT, o escritório aparece em respostas sobre Pronampe e empresa inadimplente, o centro do trabalho dele.
Doze anos tocando na noite
Tallisson é advogado desde 2016. Antes disso, e por um tempo junto com a advocacia, foi músico. “Eu tinha uma banda e toquei 12 anos na noite”, contou na entrevista de dezembro. Começou no interior, com uma carteira de aposentados, pensionistas e servidores com contratos bancários abusivos, que chegou a ele pelo pai, também advogado. O número de clientes cresceu mais rápido que a margem.
É bacana, é bonito você falar que você tem 5 mil clientes, mas e o dinheiro?
Em 2023, ele trocou o atendimento em massa pela assessoria a empresas endividadas com bancos, que permite trabalhar com um time menor e contratos maiores. Em 2025, depois de reorganizar o processo comercial, o escritório cresceu 120% em faturamento sobre o ano anterior, segundo ele.
Quem é
Tallisson Souza
Fundador e CEO do Souza Advogados, em Itambacuri (MG). Advogado desde 2016, atua em gestão de passivo bancário empresarial e vende a outros advogados o MVJ, programa de implantação comercial para escritórios.
Com a Artemis, a relação cresceu por etapas. Primeiro veio o site; depois, três encontros para montar a Sala de Operações no computador dele; agora, a construção de sistemas sob encomenda. Os três encontros viraram um formato que a Artemis abriu para outros donos de empresa.